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Crítica | Ao Cair da Noite

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Lembro-me de ficar bastante entusiasmado quando assisti ao trailer de “Ao Cair da Noite” durante uma sessão de “Corra”, especificamente por uma única cena onde percorremos um corredor com uma porta vermelha ao fundo e temos uma sequência de sons comuns que se repetem e, conforme nos aproximamos da porta, se intensificam gradualmente, gerando uma atmosfera completamente perturbadora e aterrorizante. Ali o filme me comprou, mais pela edição de som do que pela proposta. Fiquei extremamente curioso para conferir “Ao Cair da Noite” pela personalidade diferenciada do trailer. A minha surpresa só aconteceu durante a sessão do longa, quando me deparei com um filme completamente diferente do proposto no trailer, e isso, por incrível que pareça, foi extremamente positivo.

“Ao Cair da Noite” é o segundo filme do diretor Trey Edward Shults que tira leite de pedra com orçamentos limitadíssimos e ótimos resultados. O longa acompanha a história da família de Paul (Joel Edgerton) inserida em um cenário apocalíptico onde ninguém sabe exatamente o que está acontecendo, somente que as pessoas estão morrendo com espécie de doença altamente contagiosa. O desafio da família se resume em se proteger da contaminação e sobreviver em um mundo com recursos escassos, isso se torna ainda mais difícil quando eles abrigam uma família desesperada por refúgio em sua casa e a paranoia e a desconfiança passam a ditar a relação entre os personagens.

Não, “Ao Cair da Noite” não é um filme de terror convencional e isso possivelmente decepcionará o público geral, principalmente se considerarmos o fato de que o marketing vende um filme que não existe. Não espere pelos famigerados jumpscares, tampouco por forças sobrenaturais. “Ao Cair da Noite” é um terror sensorial e psicológico que se firma nas reações da natureza humana quando submetidos a situações onde proteger e sobreviver são as duas maiores regras.

É quase certo que o novo filme de Trey Edward Shults sofra dos mesmos males que o aclamado “The Witch” de Robert Eggers. Quase que unanimidade entre os críticos, o filme tem tudo para desagradar o público. Prova disso são suas notas no Rotten Tomatoes: O longa emplaca incríveis 86% de aprovação entre os críticos, enquanto que apenas humildes 43% da audiência geral aprovaram o filme. A ausência de respostas e a apresentação de informações de forma muito subjetiva provocam reações costumeiramente negativas no público.

Fato é que o longa não subestima sua audiência e usa isso a seu favor. Assim como os personagens em cena, nós não entendemos bem o que está acontecendo e passamos a nos identificar com o comportamento deles e sentir na pele suas dificuldades. Vale a pena correr o risco de contaminar sua família para salvar a vida de outra? São nessas decisões cruciais que a narrativa se desenrola. Todo cuidado é pouco e sacrifícios serão sempre necessários para sobreviver.

“Ao Cair da Noite” usa de diversos artifícios para adentrar o gênero do terror, pesadelos e os traumas da morte são dois recursos utilizados pelo diretor para isso. Ambos partem de experiências pessoais de Trey Shults que sofre de insônia e escreveu o roteiro do longa apenas dois meses após a morte de seu pai, fato que inspirou diretamente a primeira cena do filme.

Trey também se mostra extremamente competente em manter as atuações em um ótimo nível. Joel Edgerton mais uma vez não decepciona e consegue passar a imagem de um líder de família protetor, estrategista e, muitas vezes, paranóico. Já Kelvin Harrison Jr. é uma grata surpresa no elenco, o jovem ator de apenas 22 anos exprime diversas emoções em seu papel sem precisar abrir a boca pra dizer algo. Carmen Ejogo, Christopher Abbott e Riley Keough também se saem bem, no entanto aparecem de forma muito mais tímida no longa.

De forma geral, “Ao Cair da Noite” surpreende por suas escolhas ousadas. De início o filme parece trilhar um caminho bastante familiar, mas em seu desenrolar é comprovada a sua personalidade que foge dos tradicionais clichês do gênero. Muitas pontas soltas abusarão da sua criatividade para encontrar respostas e teorizar sobre os acontecimentos da história.

Finalmente, depois de mais de uma década estagnada, o gênero de terror parece se reinventar com filmes como “The Witch”, “Corra” e “Ao Cair da Noite”, que contam ótimas histórias e não recorrem aos apelativos sustos ou ao exaurido estilo found footage.

 

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Will Brandini Um urso, discípulo de Zé Colméia, assaltante de pipoca de cinema que tenta falar nerdices com alguma autoridade enquanto foge do Guarda Smith.