Home Editorial Resenha: Game of Thrones s06e09 – “Battle of The Bastards”
Resenha: Game of Thrones s06e09 – “Battle of The Bastards”

Resenha: Game of Thrones s06e09 – “Battle of The Bastards”

0
0

A Noite chega, e agora começa nossa vigília.

Nesse domingo, milhões de espectadores prepararam seus aperitivos, arrumaram um lugar confortável e se reuniram ao redor do mundo em frente de suas TVs, computadores e smartphones para acompanhar ao vivo os lances finais de mais uma temporada de “Game of Thrones”. Dessa vez, o clímax do épico fantástico de sangue, morte e, é claro, dragões, gira em torno da acirrada guerra pelo controle de Winterfell e Meereen. No universo ficcional de Westeros, esse conto de duas cidades vai além de uma mera disputa territorial: ele marca o fim de um ciclo político nos dois continentes e a ascensão de novas líderes, que serão responsáveis pelo destino da humanidade.

Se “Battle of The Bastards” foi recebido com ansiedade pelos fãs da série de TV, é sempre bom lembrar para essas “doces crianças do verão” que muitos leitores da saga literária de George R.R.Martin esperavam por esse momento há MUITO tempo (basta lembrar que o primeiro livro da série foi lançado há 20 anos!). Tanto que a comunidade de fãs apelidaram esses aguardados conflitos de “Battle of Ice” e “Battle of Fire” (como em “A Song of Ice and Fire”, entenderam?). Em homenagem a esses leais (e pacientes) guerreiros que suportam o longo inverno até o próximo livro, usaremos esses apropriados títulos.

Sem mais delongas, desembainhe sua espada, suba em seu dragão, e vamos à guerra!

Sansa-1

A Batalha do Fogo

Daenerys Stormborn está de volta, apenas para encontrar sua cidade adotiva sitiada pela armada dos escravocratas. Como previsto por Grey Worm e Missandei, Tyrion subestimou o ódio dos feitores pelos escravos libertos e sua insistência em lutar com unhas e dentes para manter o sistema econômico que os privilegia. A virulência dos nobres é sentida nos termos da negociação com a rainha, que exige que os “rebeldes” sejam novamente postos em grilhões. De certa forma, na ausência de Dany o anão fez o seu trabalho bem demais, comprando tempo para o retorno da rainha e demonstrando aos habitantes da região que Meereen e as cidades vizinhas poderiam florescer e prosperar sem o instituto da escravidão.

Como fogo que rapidamente se espalha e se consome, a Batalha de Meereen é resolvida em instantes: agora em total controle de seus “filhos”, Daenerys apresenta aos despreparados feitores o conceito da guerra aérea, colocando os soldados conscritos rapidamente em fuga. Os “Filhos da Hárpia”, acostumados à táticas de guerrilha, são varridos em campo aberto pela horda dos Dothraki. Ao final, os emissários nobres são executados, deixando apenas o rico comerciante como testemunha ocular do terrível poder da rainha.

A Batalha do Fogo marca uma tripla revolução: a mais óbvia é a abolição definitiva da escravidão da Baía dos Escravos (acho que terão que inventar um novo nome…), e a queda da elite econômica local. Mas ela também é um marco para Daenerys. Se o legado de sua família a impelia a aniquilar seus oponentes com “Fogo e Sangue”, os conselhos de Tyrion temperam sua fúria draconiana e a ajudam a não só “quebrar a roda”, mas tentar fazer florescer das chamas da batalha algo novo e melhor.

A terceira revolução ainda é nascente, mas interessante. Terminado o teste de comandar uma cidade, Daenerys está pronta para seu verdadeiro objetivo: reconquistar Westeros. O primeiro passo acontece rapidamente, com a chegada dos Greyjoy. O pacto firmado entre Yara Greyjoy e Daenerys pode levar à “civilização” dos povos da Ilha de Ferro. Além de ter sua primeira líder mulher, os Ironborns ainda deverão abdicar de seu modo de vida tradicional de invasões e pilhagens e reconhecer a unidade dos Sete Reinos. Nos salões de Meereen, vemos uma nova geração de nobres de Westeros – Daenerys, Tyrion e os irmãos Greyjoy – abdicar do caminho desastroso trilhado por seus pais e antepassados… com resultados ainda imprevisíveis.

ice

A Batalha do Gelo

No gélido Norte, os filhos de Ned tentam retomar Winterfell e unir novamente a região sob sua bandeira. Descobrimos logo que o nome do episódio não passa de uma pegadinha: apesar de Jon Snow estar à frente do Exército dos Starks, a verdadeira batalha é travada entre Sansa Stark e Ramsay Bolton, seu marido e antigo algoz.

Vimos no decorrer da temporada que é a jovem que convence seu relutante meio-irmão a pegar em armas contra Ramsay, ajudando a reunir as poucas casas ainda leais à sua família. Mesmo alijada do Conselho de Guerra, é ela que aponta a Jon o erro em subestimar inimigo que desconhece. O rapaz tenta provocar Ramsay para o duelo, apelando para algum senso de honra coletiva dos Boltons e seus aliados, que vimos em episódios anteriores serem traidores por natureza. Sansa demonstra ter consciência dos riscos envolvidos na empreitada, tentando convencer Jon de que seu irmão Rickon poderia ser dado como morto, uma vez que Ramsay jamais o deixaria escapar para contestar seu comando.

Para a surpresa de ninguém, Jon cai na armadilha de Ramsay. Como lembrou Sansa, seu marido é um caçador por natureza. Ele vem caçando seu lugar como senhor do Norte com avidez e sadismo desde que apareceu na história. Sansa e Jon são a última presa em seu caminho para o prêmio final. Analisaremos outro dia a épica batalha por Winterfell. Basta dizer que, usando Rickon como a isca perfeita, Ramsay neutraliza Jon e precipita o ataque do exército dos Stark, deixando-os totalmente expostos às forças superiores de Ramsay e seus aliados.

Se a Batalha do Fogo é rápida e gloriosa, a Batalha do Gelo segue o lema dos Starks: é sacrificada, cruenta e dolorosa. Em dado momento, o campo se torna um verdadeiro moedor de carne humana, com pilhas de corpos se aglomerando sob o olhar sádico de Ramsay. O abate final dos Starks só é evitado pela intervenção de Littlefinger e os Cavaleiros do Vale, chamados às pressas por Sansa. Transtornado, Jon quase mata Ramsay – não em um duelo heroico, mas espancando seu inimigo. Talvez o que tenha impedido é que ele ainda se lembra que é o filho de seu pai. Ned ainda vive em seu exemplo de retidão.

E quanto à Sansa? Enquanto a bandeira dos Stark tremula novamente sobre Winterfell (sem o lamento épico da Casa ao fundo, essa não é uma vitória a ser comemorada com fanfarra), Sansa confronta pela última vez seu nêmesis. É irônico que, após ter lutado tanto para deixar de ser um bastardo, Ramsay venha a ser último senhor dos Bolton, Casa que será apagada da memória do Norte, ao menos se depender de Sansa. A justiça poética da morte de Ramsay pelo seu meio preferido de execução – trucidado por seus próprios cães de caça – traz por outro lado um sinistro presságio…

A jovem exita alguns instantes para apreciar a cena. Ao se afastar, um leve sorriso pode ser visto em seus lábios. Podemos intuir um certo prazer sádico nos olhos da nobre. Essa certamente não é uma execução solene aos moldes de seu pai, como vimos no primeiro episódio da série. Ela ocorre na escuridão, não somente para cumprir alguma noção de justiça, mas também para extrair dor da vítima e satisfação de seu algoz. A despeito das palavras de Sansa, talvez Ramsay tenha de fato deixado algo dele nela, uma lição de maldade legada como herança final.

Para o bem ou para o mal, a nova Senhora de Winterfell não parece ser mais apenas a filha do honrado Ned Stark. Talvez um novo tipo de ordem vá  imperar no Norte. Esse é um novo (e terrível) mundo.

ice-and-fire

E valeu a espera?

Sim! Especialmente depois de dois episódios bem mornos (acho que o pessoal estava guardando a grana para esse). Apesar de termos ainda um (longo) último episódio pela frente, o grande clímax dessa temporada ocorre mesmo em “Battle of The Bastards”. Sem contar mais com as rodinhas de apoio do material original, os diretores da série optaram nesse episódio por não tentar emular os intricados plot twists e surpresas elaborados por Martin, dedicando-se a entregar o que a HBO faz de melhor: uma produção fantástica, épica e, muito, muito cara. Dessa forma, tivemos um roteiro bastante tradicional (surpreendentemente próximo de um “final feliz”), mas que deve agradar muito pela catarse de acontecimentos há muito aguardados e o desbunde visual das cenas de batalha.

A Batalha do Norte, especificamente, talvez seja uma das mais bem filmadas na história da TV, salvo talvez por Band of Brothers. A produção empregou mais de 500 extras e dublês, inclusive pelo uso em larga escala de montarias na cena, algo custoso e de difícil operação, sem que o espectador se perca no fluxo dos acontecimentos. A opção de usar Jon como os olhos do telespectador foi muito acertada, ajudando a transmitir o desespero e a confusão da batalha campal. Achei muito curioso saber que uma das cenas mais dramáticas da luta – o soterramento de Jon pelos selvagens em fuga – foi na verdade uma improvisação do diretor devido ao exíguo tempo de filmagem.

Há poucos pontos negativos no episódio. Um deles é a irritante mania dos roteiristas em dar soluções relativamente fáceis e rápidas para os dilemas de Daenerys, tornando-a uma personagem quase perfeita, mas entendo que os vultosos custos impediriam que se fizessem cenas mais longas na Batalha do Fogo (fiquei surpreso em saber que a “grande armada” dos escravagistas era apenas um barco multiplicado em CGI). Dito isso, o episódio teria uma imersão maior se fosse todo dedicado à mostrar a Batalha do Gelo, como ocorreu em “Blackwater”, novo episódio da segunda temporada.

Do ponto de vista narrativo, a grande mensagem do poder feminino dessa temporada se confirma em “Battle of The Bastards”. Ambas as batalhas, pivotais para a história da série, são vencidas primordialmente por mulheres: Daenerys Stormborn e Sansa Stark.

Por outro lado, os personagens masculinos são fragilizados para dar espaço para suas contrapartes femininas: Theon, o primogênito dos Greyjoy, é uma figura literalmente castrada física e emocionalmente, enquanto o perspicaz Tyrion é colocado no papel de conselheiro, sendo incapaz de efetivamente substituir a rainha. Jon, na figura do herói clássico, é mais de uma vez ludibriado, dependendo do socorro de sua irmã para sobreviver. Resta saber se ao final os produtores manterão essa linha narrativa, levando a uma verdadeira revolução matriarcal em Westeros.

Nota: 9,5/10 Gigantes Tristes e Solitários.

Comments

Comentários

HQ Café Blog de quadrinhos e cia, para você ler naquela pausa diária do cafezinho!