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A Física da Vertigo
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A Física da Vertigo

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Há pouco tempo, um amigo me recomendou comprar um título chamado DPF. What?

Eu não fazia a menor ideia do que se tratava – e olha que em termos de quadrinhos, não é sempre que acontece – não deu maiores detalhes, mostrou a capa, que eu achei bem interessante, mas, nos afazeres do dia a dia, deixei pra lá. Esqueci completamente – isso sim acontece sempre.

Passou um tempo e outro amigo me recomendou novamente a tal edição.

Bem, como não acredito em coincidências – mas acredito piamente em qualidade – fui lá e comprei o tal do DPF o qual eu não sabia nada.

robbi_rodriguez

Explicando rapidamente: DPF significa Departamento de Polícia da Física. A física está gradualmente se rachando, o que conhecíamos não faz mais sentido, rupturas quebram a gravidade de locais, dimensões paralelas irrompem no meio de cidades e para dar um jeito nisso, existe este órgão do governo que fiscaliza fenômenos físicos anômalos. Só que tão sucateado e burocrático quanto qualquer órgão governamental que se preze.

Ah, sim, e DPF também é uma série da Vertigo, vale dizer.

sandman_2

Para quem não sabe (é, você mesmo, garoto isolado aí do canto) a Vertigo é um selo semiautoral da DC, que surgiu nos anos 80 altamente influenciado pelos trabalhos de Alan Moore, focado em tudo que fosse essencialmente maduro, diferente e criativamente desafiador (ou ao menos, desafiador dentro dos limites do mercado, que fique bem claro).

Evidentemente isso não surgiu por nenhum bem à arte, mas sim porque os trabalhos de Moore começaram a chamar atenção fora do gueto dos quadrinhos e a ganhar matérias extensas em revistas como Spin e Rolling Stone, coisa que nunca havia acontecido antes, e, a editora viu aí uma boa oportunidade de lucrar.

E o que melhor que um selo que agrupasse tudo isso, para indicar ao leitor o que era descolado, moderno e atrevido para ele consumir? Um rótulo que diferenciasse os homens com cabelinho no peito dos meninos leite com pera?

Com as pendengas de Watchmen, onde a DC prometeu devolver os direitos à Moore quando acabasse de imprimir a obra, só que convenientemente, nunca parou de lançar novas reedições, Moore cortou laços com a editora e óbvio, se recusou a endossar a nova iniciativa que estava surgindo.

Sem Moore, tiveram que se virar com os “artistas na linha de Moore” que tinham em seu catálogo, para sorte da editora, gente do quilate de Neil Gaiman, Grant Morrison e Jamie Delano. Não é sempre que isso acontece. Como Moore comentaria sarcasticamente anos depois, “a Vertigo era um modo de criar Alan Moores em cativeiro”.

hellblazer

Essa primeira fase gerou alguns clássicos instantâneos, como Hellblazer de Jamie Delano, Sandman de Neil Gaiman, Homem-Animal e Patrulha do Destino de Grant Morrison, ganhou pilhas de prêmios, plantou algumas sementes, repaginou alguns personagens menores e comercialmente irrelevantes, vendeu alguma coisa e fez bem para imagem da editora, mostrava que a DC era a modernona do pedaço.

A segunda fase do selo foi bem mais irregular, com diversas minis e títulos que pecavam por uma certa artificialidade, por um efeito choque-acima-de-tudo, mas alguns dos grandes destaques dela foram a descoberta do Garth Ennis inicial, com seu run em Hellblazer, Preacher e Soldado Desconhecido (caramba, Ennis era bom nessa fase), Os Invisíveis de Grant Morrison e Transmetropolitan de Warren Ellis, que originalmente surgiu para alavancar o selo Helix, mas como este não vingou, foi prontamente cambiado para Vertigo.

A terceira fase, diz muito sobre as novas regras do mercado, foi a fase dos high concepts, ou seja, conceitos prontos e chamativos, pré-embalados para virar seriados ou filmes. Estão aí 100 Balas de Brian Azzarello, Y- o Último Homem de Brian K. Vaughan, Escalpo de Jason Aaron e finalmente, DPF de Simon Oliver e Robbi Rodriguez.

100balas

Após ler as duas primeiras histórias do álbum, realmente não tinha entendido porque tanto auê por parte dos meus amigos. Ainda mais por serem pessoas que eu particularmente confio no gosto.

Contudo, à medida que a trama avança sem pressa, sem entregar nada de maneira óbvia, você percebe que está cada vez mais imerso naquele universo.

Ao fim do álbum, comprar o segundo volume não era uma questão de escolha, mas sim de necessidade.

O roteirista Simon Oliver faz um belo e arriscado trabalho, não apostando nas escolhas fáceis e jogando cada pista e dado com economia, sem didatismo, a arte de Robbi Rodriguez, fluída, maleável como a própria física que se distorce casa muito bem com o clima da história e é repleta de personalidade. Tudo isso emoldurado pelo belo conjunto de cores ácidas de Rico Renzi. Acho que desde Richard Isanove eu não reparava em um colorista.

Nesse mar de mesmice que ronda o mainstream, se quiser uma nova série para chamar de sua, recomendo.

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