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Resenha: Game of Thrones s06e07 – “The Broken Man”

Resenha: Game of Thrones s06e07 – “The Broken Man”

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É mais fácil destruir do que reconstruir. Essa é uma importante lição que recebemos desde nossa primeira infância: a criança que demole um castelo com um safanão, mas leva minutos para encaixar dois blocos; o jovem que fica meses engessado após uma peripécia mal-sucedida; casais que levam anos para se reconciliar após uma palavra áspera proferida. Desde nações que entram em colapso a indivíduos afligidos por um profundo trauma pessoal, juntar os cacos daquilo que foi quebrado leva tempo, paciência e muito, muito esforço.

Nesse sentido, “Game of Thrones” é uma série que fala muito sobre a guerra como tragédia, divergindo das fantasias clássicas ao não romancear esse fenômeno e concentrando-se em seus aspectos destrutivos. No épico de G.R.R. Martin, as guerras não são formadoras de caráter ou episódios de reafirmação dos valores de um povo contra o mal. Elas são eventos sujos, que revelam a natureza bestial do homem, estraçalham países, regimes, famílias e, principalmente, as pessoas nelas envolvidas. Seus personagens (aqueles que não morrem) podem até evoluir ao longo da série, mas sempre por meio de muito sofrimento e dor.

Em “The Broken Man”, voltamos nossos olhos para as várias feridas ainda abertas em Westeros pela Guerra dos Cinco Reis, e para os homens e mulheres que tiveram suas vidas e almas por ela destruídas.

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Sobre Casas Partidas…

Nos episódios anteriores, vimos como Sansa e Jon começaram a superar seus traumas pessoais juntos, ao reconhecerem um no outro que os Starks ainda resistem, a despeito da sucessão de tragédias de sua família. Agora eles só precisam convencer o resto do mundo disso.

Em sua jornada para reunir aliados para derrotar Ramsay Bolton, os filhos de Ned percebem que o Norte está quebrado e reconstruí-lo não será nada fácil. O Inverno já chegou para os senhores nortenhos, desde a orgulhosa Lyanna Mormont, levada precocemente ao trono pelo assassinato de sua mãe no Casamento Vermelho, até o velho Lord Glover, cuja família foi dizimada pelos Greyjoys, enquanto o Rei Robb se aventurava no Sul.

A trilha de amargura e penúria que divide a região atinge em cheio os jovens Starks, que tem recorrentemente sua legitimidade contestada. Como acreditar em um bastardo e uma esposa fugitiva, ambos sem homens e privados do lar ancestral dos Senhores do Norte? Estão mesmo os Starks ainda vivos? Ao final, os filhos de Ned podem contar apenas com fragmentos das antes leais Casas do Norte. Sua força improvisada acaba por depender principalmente dos selvagens, eles próprios um pálido reflexo do exército do Rei Além-da-Muralha, despertando ainda mais a desconfiança dos locais.

Sansa parece disposta a fazer sacrifícios para garantir a refundação de sua família. Em uma misteriosa carta, talvez a jovem tenha decidido reconstruir as pontes por elas queimadas com seu antigo tutor… será que no último  instante os Cavaleiros do Vale marcharão para o Norte?

Mas o colapso das Casas de Westeros pode ser sentido também entre os aparentes vitoriosos, provando que a guerra por vezes pode ser uma empreitada desastrosa para todos os lados do conflito.

Os Frey tiveram uma vitória de Pirro ao traírem o Rei Robb e romperem com tradições ancestrais: agora virtuais senhores das Riverlands, são vistos com desconfiança e escárnio pelas famílias da região, e tratados com descaso mesmo por seus aliados, os Lannisters. As Riverlands estão infestadas por bandidos e revolucionários. Pior, o Blackfish retomou Riverrun e está disposto a sacrificar o que restou de sua própria Casa, os Tully, para se vingar de seus algozes.

Em King’s Landing, vemos o High Sparrow consolidar sua revolução teocrática, possibilitada pelo exaurimento das forças tradicionais do continente. Sua ardilosa estratégia é  simples: isolar a Família Real (exilando Jaime e a Rainha de Espinhos) e corroer lentamente os Lannisters e os Tyrell (por exemplo, privando a Casa das Rosas de seu herdeiro, Loras). Nesse episódio, podemos antever que o Pardal, após transformar o ingênuo Rei Tommen em uma marionete, pretende garantir que o futuro herdeiro será criado sob as asas da Fé.

Ironicamente, talvez a única pessoa que possa impedir a completa destruição do sistema de Casas de Westeros e sua substituição por uma Teocracia conservadora e misógina não seja um poderoso exército, mas a jovem Margaery. Durante a série, vimos a cortesã assumir diferentes papéis para manipular os homens e ascender no poder: a esposa liberal com o Rei Renly Baratheon; a mãe dos pobres para o povo de King´s Landing; a aprendiz de psicopata com Joffrey; a mulher experiente com seu irmão Tommem. Agora, ela sinaliza com um botão de rosa seu comportamento como uma rainha casta é mais uma fachada para ganhar tempo. Resta saber se ela também será bem-sucedida em ludibriar o astuto Pardal.

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… e Homens Quebrados

Embora o episódio seja bastante feliz em mostrar a deterioração da sociedade de Westeros, os traumas da guerra civil são verdadeiramente sentidos na figura de dois homens: Theon Greyjoy e o Sandor Clegane, o Cão de Caça. Os dois, de certa maneira, representam dois retratos lamentáveis daqueles que marcham para o conflito e sobrevivem depois.

Embora tenha juntado forças para escapar do julgo de Ramsay, a trajetória de Theon está longe de ser a clássica história do personagem mimado que passa por perigos, aprende uma lição e retorna mais experiente e maduro. Como muitos prisioneiros de guerra na história da humanidade, Theon ainda carrega consigo o pavor dos aterrorizantes anos que passou em cativeiro. Suas mutilações físicas e mentais certamente impedem que ele volte a ser o aventureiro do início da história e criam um abismo entre ele e seus lascivos e corajosos compatriotas. A despeito dos apelos de sua irmã, ainda não está claro se Theon será capaz em qualquer momento de encontrar um novo caminho para si, ou se escolherá, como muitos, a morte como a fuga final do sofrimento em vida.

O retorno surpreendente de Sandor Clegane, por sua vez, nos mostra o lado dos soldados que voltam traumatizados dos conflitos, contada de tantas maneiras em libelos anti-guerra como “Rambo”, “Apocalipse Now” e “Matadouro 5”. É curioso que, salvo da morte certa, o Cão de Caça cumpra sua penitência em uma pequena comunidade de plebeus, representando aquelas pessoas que normalmente são as principais vítimas das guerras: os civis. Lideradas pelo Pastor, ele próprio um soldado arrependido, a comunidade se dedica a reconstruir parte daquilo que foi arrasado na Guerra dos Cinco Reis. A árdua, mas gratificante tarefa de erguer o templo é uma interessante metáfora para o lento e difícil trabalho de superar os traumas da guerra, de reencontrar a humanidade após anos de brutalidade.

É claro que, em Westeros, isso ia durar pouco: a visita de guerreiros da Irmandade sem Bandeiras é o sinal de nuvens negras na pequena comunidade. A despeito dos apelos de Sandor, o Pastor tenta transmitir sua lição: a principal manifestação da guerra, a violência, é como uma doença. Ela se espalha em um ciclo vicioso, trazendo mais dor e destruição a despeito de suas boas intenções. Não há guerra justa. Não há causa que a dignifique. A corrupção da irmandade, antes um grupo de “bandidos sociais” que lutavam contra a opressão do rei, é um claro conto admonitório. Para superar o pesadelo da guerra e deixar de lado a besta que o soldado se torna, deve-se renunciar permanentemente ao conflito.

E ele, e todos os seguidores, são mortos por isso.

Algumas vezes, a guerra muda o homem além da possibilidade de redenção. Diante de mais uma atrocidade e sem seu guia, Sandor Clegane segue o único caminho que sempre conheceu e o qual ele já trilhou a tempo demais. Ele viu demais. Ele fez demais. Algum dia ele pode ter sido um homem, mas resta-lhe agora ser somente o Cão de Guerra.

A trágica história de Sandor nos lembra da segunda parte daquela lição inicial: algumas coisas podem ser quebradas além do ponto de reparação.

Mas dá para salvar esse episódio?

Bom, esse episódio sofre um pouco do mesmo problema de lentidão de alguns outros episódios. Parte das tramas se arrastam um pouco, o que pode desagradar alguns: já sabíamos que Jon e Sansa teriam dificuldades para formar seu exército; Cersei e Margaery continuam a serem intimidadas e afligidas pelo High Sparrow; Theon ainda não superou seus traumas e é apenas um reflexo do que já foi; as Riverlands estão uma confusão e Jaime ainda não conseguiu se impor como um líder respeitado pelos demais. Assim como no episódio anterior, a necessidade de criar o cliffhanger que vai atrair os espectadores para o próximo episódio fez com que eles acabassem o episódio com o ataque à Arya, uma inclusão que pareceu um pouco artificial e que não combina bem com o tom do resto do episódio.

De certa maneira, o “The Broken Man” sofre um pouco com o mesmo estigma do quarto livro da série, “O Festim de Corvos”, em que Martin se dedica mais a contemplar as consequências da guerra para Westeros, ao invés de desenvolver a trama de personagens favoritos dos fãs, como Tyrion e Jon Snow. Particularmente, acho a ideia interessante, como forma de tornar mais real o intrincado mundo ficcional criado pelo autor e tratar de forma lúdica acerca de temas importantes de nossa sociedade.

The Broken Man” serve ainda para reintroduzir Sandor, e posiciona-lo para o arco final da série, com seu possível reencontro com Brienne (em sua missão para encontrar o Blackfish, lembram?), Jaime e, possivelmente, seu irmão e inimigo, a Montanha. Nos próximos episódios, os produtores devem começar a fechar as tramas dessa temporada, então os mais afoitos podem esperar episódios mais eletrizantes, cheios de reviravoltas e cenas chocantes que tornaram a série tão famosa.

Nota: 7/10 velhinhas assassinas disfarçadas (que vacilo hein, Arya?)

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