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Resenha: Game of Thrones S06E06 – Blood Of My Blood

Resenha: Game of Thrones S06E06 – Blood Of My Blood

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Ah, família! Aquele curioso grupo de pessoas que nos cerca quando nascemos e que, por alguma estranha razão, insiste em se manter ao nosso redor, fisicamente ou em nossos corações, durante toda nossa vida.

Homens e mulheres que estão entre nossos melhores amigos, tutores, amantes e confidentes, com os quais compartilhamos nossas maiores vitórias e, por vezes, são fonte dos nossas principais neuras e mais profundos traumas. Forçosamente, somos pouco mais do que um reflexo desses humanos.

Em homenagem à essa bizarra instituição, os heróis de Game of Thrones aproveitaram esse feriado para descansar por um momento suas espadas, tirar o pé do acelerador e celebrar a importância da família. É claro que, no universo de Westeros, reuniões familiares são regadas a traições, assassinatos e morto-vivos!

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A Maior Inimiga

É claro, todas as famílias tem seus problemas: aquele cunhado que te deve dinheiro, aquela prima falsa, os pais que insistem que você finalmente “encontre um rumo na vida”. Não é raro também que nossas vidas sejam atropeladas pela intervenção de um ente querido. Mas esses contratempos não são nada perto da vida dos Lannisters, uma família real que deixaria Shakespeare e os tabloides ingleses ruborizados. Em sua história recente, os Senhores de Casterly Rock acumulam episódios de incesto, fratricídio e outros escândalos variados. Em “Blood of my Blood”, vemos mais uma etapa de um ciclo vicioso dos antagonistas mais amados de Westeros.

Desde o início da série, os Lannisters percorreram com voracidade o tortuoso caminho para o Trono de Ferro. Por meio da intriga e da violência, eles dizimaram sem piedade as famílias Baratheon, Stark e Tully e seus demais rivais. Parece estranho que os  vitoriosos da Guerra dos Cinco Reis se encontrem agora numa situação tão crítica. Relembrando as temporadas anteriores, tive uma epifania: os maiores inimigos dos Lannisters, no final das contas, são eles mesmos! Enquanto eliminavam seus oponentes, Tywin Lannister e seus filhos se consumiam por dentro em rivalidades pessoais, culminando com a morte do patriarca, o exílio de Tyrion, a “caminhada da vergonha” de Cersei e os assassinatos de seus filhos.

O episódio dessa semana é um ótimo exemplo disso: Jaime e seus aliados de conveniência, os Tyrell, tentam finalmente derrubar o poder do High Sparrow, um inimigo alimentado pelas próprias maquinações inconsequentes de Cersei, e salvar a Rainha Margaery (e a reputação das duas famílias, é claro). Para a surpresa de todos, o sangrento plano de Jaime é frustrado por… Tommen! Em um acordo de bastidores, o jovem rei virtualmente entrega o Trono de Ferro para o sacerdote, livrando a astuta rainha e possivelmente seu irmão, Loras.

Confesso que, assim como Jaime, fiquei um pouco decepcionado com o Tommen, já que em alguns episódios o infante deixou vislumbrar sinais da fúria psicótica de seu finado irmão Joffrey. Isso poderia ter rendido uma boa reviravolta na história. Mas ao menos em uma coisa ele puxou seu irmão: para jogar sal na ferida da traição fraterna, Tommen destitui Ser Jaime, seu mais leal cavaleiro, o que certamente fez parte do acordo costurado por Margaery. De certa forma, o cada vez mais isolado monarca segue a tradição de sua Casa de apunhalar seus parentes pelas costas.

Antes de partir para o exílio forçado nas Riverlands, Jaime encontra-se (talvez pela última vez?) com sua irmã-amante Cersei. A Rainha está confiante que sobreviverá ao julgamento da Fé com seu monstro protetor, o que certamente quer dizer que ela será mais vez ludibriada pelo astuto Pardal. Suspeito que o Montanha enfrentará Ser Loras, ou talvez um irmão há muito dado por morto… De qualquer forma, Cersei lembra Jaime que eles são os únicos que existem e importam no mundo, o que não parece um bom prospecto para os demais parentes.

A trágica história dos Lannisters nos serve de uma importante lição: nossos entes queridos podem ser nossos piores inimigos, mesmo involuntariamente. São as pessoas que melhor conhecem seus medos e anseios, aquelas que estão mais próximas de nós em nossos momentos de fragilidade, e cujos golpes são mais dolorosos.

Por isso, meninos e meninas, tratem bem seus irmãos! (mas sem a mesma intimidade de Jaime e Cersei, por favor!)

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A Melhor Aliada

Curiosamente, são as agruras de Cersei que alimentam a fagulha de consciência em uma inimiga além do Mar Estreito. O dilema da aprendiz dos Homens sem Face finalmente chega ao seu clímax nesse episódio. Agora disfarçada como a entusiasta das artes cênicas Mercy, a jovem coloca em prática seu plano para eliminar Lady Crane. A missão teria sido bem sucedida, se não fosse sua curiosidade (característica não muito boa para um futuro assassino de aluguel).

De fato, Lady Crane deve ser uma ótima atriz. Minha impressão é que, a encenação da veterana artista, aliada à sua conversa nos bastidores do teatro itinerante, faz a jovem forasteira relembrar a injusta execução de seu querido pai e do resto de sua família. Não, Cersei não deveria apenas chorar a morte de seu filho, arrancado dela antes da hora. Ela deveria estar indignada, brava, pronta para despejar sua fúria justa contra os algozes de seu primogênito. Assim é Arya Stark, não um mercenário sem face e sem nome, um assassino frio a mando de um deus desconhecido. Ela é a filha de Ned Stark, uma mulher capaz de matar em nome da justiça, de acordo com seus próprios princípios.

Em um momento carregado de simbologia, Arya desenterra sua Agulha, a materialização de sua última ligação com seus entes queridos, recuperando assim sua identidade e rejeitando o Deus de Muitas Faces. De certa forma, Arya foi salva da “morte” de se tornar “ninguém” por sua família, pelas lembranças e pelo amor que ela ainda nutre por aqueles que nunca verdadeiramente a deixaram. É claro que essa escolha terá seu preço, mas isso fica para outro episódio…

Enquanto isso, no distante Norte, vemos algo semelhante acontecer com Bran, agora o novo Corvo-de-Três-Olhos. Tendo perdido alguns de seus mais importantes aliados, Bran e Meera se veem abandonados e perseguidos pelos lacaios dos White Walkers. Quando tudo parecia perdido, um misterioso cavaleiro de “mãos negras pelo frio” surge para salvar a dupla. O episódio não perde tempo para revelar a identidade do guerreiro: vem da distante primeira temporada o perdido Benjen Stark, salvo da morte certa (bem, mais ou menos) pelas Crianças da Floresta, mantendo acesa a chama da esperança na luta contra o Inverno.

As trajetórias de Bran e Arya nos mostram um pouco mais a grande diferença entre os Lannisters e os Starks, algo que havíamos aprendido em “Oathbreaker“: a despeito da nuvem negra de tragédias que insiste em perseguir os Starks, seus membros crescem e ficam fortalecidos quando juntos, ainda que em suas memórias e seus corações.

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Aquela que Escolhemos

Mas a melhor história da noite, e que de certa forma sintetiza o tema de “Blood of My Blood”, fica por conta do pacato Sam. É claro que um episódio dedicado à importância da família não estaria completo sem a celebração de uma importante tradição que atravessa eras e culturas: o jantar de família!

Quem nunca teve o prazer de se reunir à mesa para uma daquelas agradáveis conversas em que discutimos amigavelmente sobre assunto amenos como religião, política, comportamento? Em que somos indagados sobre questões como: “e as namoradinhas?”, “e quando sai o casamento?”, “não era melhor fazer uma faculdade de verdade?” ou “Sabia que seu irmão já conseguiu um emprego?”. A lista de exemplos é longa, mas tenho certeza que cada um de vocês conseguirá encontrar em suas memórias ótimas perguntas que já ouviram (e fizeram) e um desses eventos sociais tão únicos.

No caso de Sam, finalmente conhecemos sua tão falada família, que certamente faz juz à sua péssima reputação. Os Tarly são uma das mais tradicionais e prósperas famílias da região. E Sam não poderia voltar em melhor situação de seu exílio forçado pelo seu pai, o conservador Randayll Tarly. A melhor comparação que posso imaginar seria algo como um pai militar “linha dura” recebendo em sua casa aquele seu filho que nunca “tomou jeito”. E ele traz sua namorada. Ela talvez estude artes cênicas ou cinema. E – surpresa – ela está grávida!

O jantar dos Tarly tem todos os clichês possíveis desse tipo de situação: a mãe apaziguadora, o irmão fanfarrão, as “vergonhas” trazidas pelo interesse romântico que rapidamente se revelam para espanto dos presentes. O clima da ocasião talvez seja mais tenso do que uma invasão de mortos-vivos. Nenhum dos feitos de Sam, desde sua defesa da Muralha até a luta contra o White Walkers, são reconhecidos, e ele é recorrentemente lembrado da desgraça que ele é para sua família. Mesmo a valorosa intervenção de Gilly é prejudicial, culminando com a expulsão de Sam de sua própria casa. Ao menos a jovem e seu bebê ficarão bem, certo?

E numa das maiores surpresas da noite, o humilhado patrulheiro decide levar consigo Gilly e o pequeno Sam, provando que a coragem pode se revelar de muitas formas. Apesar de ter sido incapaz de encarar seu pai, Sam abraça o que agora é sua verdadeira família, optando por defende-la ele mesmo dos inevitáveis perigos e dificuldades que encontrarão em suas aventuras pelo caminho. Talvez separados os três ficassem mais felizes e seguros, talvez não. Essas difíceis escolhas foram, são e serão tomadas por pais em toda a história: ante um mundo caótico (seja na ficcional Westeros, seja no mundo real), tentamos ao máximo tomar a melhor decisão possível, e então torcemos para que ela seja suficiente.

É claro que levar uma espada lendária – por via das dúvidas – pode ajudar!

E a família toda vai gostar?

Humm, dificilmente. Após o final apoteótico de “The Door”, chegamos em um episódio bem mais lento, uma espécie de “respiro” antes de irmos para os arcos finais da temporada.

Dessa maneira, podemos ter a sensação de que “Blood of My Blood” é apenas um filler, um episódio usado pelos produtores para “tapar buraco” entre outros mais importantes.

Se pararmos para analisar, nesse episódio há uma série de acontecimentos relevantes. A impressão estranha se dá pelo excessivo uso de anti-climax como recurso de roteiro para surpreender o público: a sangrenta batalha entre a Fé e Jaime não acontece; Arya não mata Lady Crane; Sam nunca encara seu pai. Mesmo o reencontro de Dany com Drogon acaba ficando aquém do esperado, com um discurso bastante forçado da Mãe dos Dragões para criar uma cena épica ao final.

Essas expectativas frustradas podem tornar “Blood of My Blood” um pouco chato para os mais ansiosos.

Nota: 7/10 almoços constrangedores de família.

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