Resenha: DC Rebirth #1 – “WTF, Johns?!”

Resenha: DC Rebirth #1 – “WTF, Johns?!”

Resenha: DC Rebirth #1 – “WTF, Johns?!”

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Atenção! Esse texto contém SPOILERS de Rebirth Nº1.

A caminho do trabalho, abro o aplicativo do Comixology em meu celular para começar a ler DC Universe: Rebirth #1, pensando em escrever uma resenha para nosso recém-criado blog. O rumoroso gibi é o marco inicial da nova fase da DC Comics. Ele é também a última contribuição do agora co-diretor da DC Films Geoff Johns nos quadrinhos (temporariamente, imagino). Na trama, Wally West, o Kid Flash original, corre contra o tempo para avisar antigos amigos e aliados que esqueceram de sua existência acerca de um perigo iminente. Acompanhando sua desesperada missão, descobrimos que diversos elementos eliminados da cronologia da DC após Flashpoint estão rapidamente ressurgindo. Wally é salvo por seu mentor Barry Allen. Ao final, é revelado que o Dr.Manhattan “roubou” 10 anos da cronologia da DC, resultando na criação dos Novos 52.

O Dr.Manhattan. o careca azul do Watchmen. criou. os Novos 52.

WTF, Johns?!

14 de novembro, 2013. Conheço pessoalmente Geoff Johns. Por uma dessas coincidências da vida (ou a mão azul do destino), estou na mesma fila de check-in que ele para irmos para Belo Horizonte participar do Festival Internacional de Quadrinhos. Eu, como um fã de HQs indo pela primeira vez ao evento, ele como um  dos principais roteiristas da DC Comics e um dos convidados mais importantes do FIQ. Apesar do cansaço do voo e do jetlag, John é bastante simpático e até assina um dos meus gibis enquanto espera para despachar as bagagens. No meio da conversa amena (“primeira vez no Brasil?”, “Já foi numa churrascaria?”), Johns me pergunta sobre meu trabalho. Respondo que sou advogado. Ele brinca: “ah, então você tem um emprego de verdade!”

O que isso tudo tem a ver com a resenha? Calma, prometo que no final vai fazer sentido (eu espero).

O que é o Rebirth?

Muito se debateu nos sites especializados o que exatamente era o Rebirth, evento anunciado pela DC Comics esse ano. Seria um retcon? Um soft reboot? Um relaunch? A confusão resulta de tentar classificar em termos literários uma iniciativa que é primordialmente comercial. Em outras palavras, minha impressão é que ela foi pensada e desenhada em termos de marketing, para só então ter sua história delineada. Assim, a melhor forma de entende-la é examiná-la do ponto de vista mercadológico. O Rebirth nada mais é que parte de uma estratégia de reposicionamento de marca, que vai da mudança do logo da empresa até alterações estruturais nos filmes da Warner. E para entendermos as escolhas feitas por Johns e Cia., temos que correr em nossa esteira cósmica e voltar um pouco no tempo.

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“Novos 52” – a modernidade dos Anos 90

Em 2009, a Warner Bros adquiriu a DC Entertainment, com grandes consequências para a DC Comics. À época, o diagnóstico da nova administração parece ter sido de que o público gentrificado da editora já não mais atendia as necessidades comerciais da empresa. A DC Comics precisava sair das tradicionais comic shops e alcançar um público mais amplo e jovem, alinhando seus personagens à suas futuras versões das séries e dos filmes.

Em 2011, a editora lança os “Novos 52”, zerando toda sua linha editorial. Superman e cia. ganharam versões mais jovens e a maior parte dos heróis “de legado” deixou de existir. O objetivo era atrair novos leitores com uma cronologia mais simples, sem as amarras de mais de 70 anos de acontecimentos, e com um tom mais moderno que conversasse com a geração da era digital.

Cinco anos depois, os “Novos 52” fracassaram. A “modernização” prometida foi, salvo algumas honrosas exceções, mais uma volta ao estilo de quadrinhos dos 90, com suas poses e ranger de dentes. É sintomático que os designs de uniforme e a edição de abertura da iniciativa tenham sido desenhados por Jim Lee, um dos ícones da “Era Image”. O tom também tornou-se mais sombrio, “realista” e violento, em consonância com o estilo adotado pela Warner nos cinemas desde a trilogia Batman de Nolan. A editora até tentou lançar títulos mais inovadores com o DC You no ano passado, mas parece que foi tarde demais. A tentativa desastrada de dialogar com a nova geração fez a DC perder parte de sua identidade mitológica, mas sem substitui-la por algo igualmente atrativo.

Além de não ter despertado tanto interesse de novos leitores, a DC viu seu público cativo minguar, com muitos fãs ressentidos por seus heróis favoritos terem sido limados sem muita consideração (como os clássicos Novos Titãs de Wolfman & Perez). Nos últimos meses, não só a Marvel tem garantido seu lugar no topo de vendas (em parte com sua nova linha do Star Wars), como a DC tem perdido espaço para alguns dos principais títulos da repaginada Image Comics, com títulos como The Walking Dead e Saga. A má recepção de Batman v Superman nos cinemas também não deve ter ajudado.

Como aquele seu interesse romântico que te dá um gelo durante anos e te procura quando você desencana, a DC Comics resolveu atenuar suas perdas e tentar reconquistar seus fãs mais tradicionais. Para isso, a editora precisava dar um passo para trás, voltar às origens, relembrar aos velhos leitores que eles poderiam encontrar os deuses modernos em suas páginas.

Entra Geoff Johns.

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The Good Old Times are back, baby!

Sobre Esperança e Otimismo

Todos que já leram o material de Geoff Johns percebem que ele é um entusiasta mitologia da DC Comics, especialmente aquela derivada das Eras de Ouro e Prata. Seus roteiros são cheios de referências à longa cronologia da editora e suas contribuições procuram mais adicionar novas páginas a esse enorme livro de fábulas modernas do que demolir os conceitos estabelecidos ao longo de décadas. Seu afeto por essas histórias pode ser bem exemplificado pela heroína Stargirl, heroína de legado criada por ele inspirada em sua irmã, falecida em um acidente de avião. Esse certamente não é um cara que despreza o gênero de super-heróis.

Johns parece entender que o universo de super-heróis funciona com regras próprias e o que pode parecer ingênuo ou ridículo no mundo real é valorizado e deve ganhar destaque nas páginas das HQs. Em suas histórias, os heróis não são “atualizados” para esconder sua natureza na forma de mercenários de moral dúbia ou agentes do governo com uniformes discretos e funcionais: eles marcham orgulhosos em seus uniformes de colant coloridos, enfrentando vilões igualmente estapafúrdios, convictos da importância de sua missão como modelos de perseverança e luta pela justiça.

Não é à toa que Johns foi escolhido pela DC/Warner para ser a “cara” da iniciativa, aparecendo em vídeos promocionais, entrevistas e talks shows, com a mensagem clara de que os bons tempos da “esperança e otimismo” dos super-heróis da DC estavam de volta, seja nos quadrinhos, séries ou no cinema. Na realidade, a nova estratégia da empresa nada mais é o que o roteirista tem feito ao longo dos últimos 15 anos, seja em seus clássicos runs do Lanterna Verde (contando o épico retorno de Hal Jordan) e da Sociedade da Justiça (em que aprofundou e expandiu a tradicional equipe), seja como co-criador da saudosista e elogiada série de TV do Flash.

Em Rebirth #1, Johns usa a fuga de Wally de seu exílio na Força de Aceleração como fio condutor para amarrar uma série de prólogos bem mornos das futuras revistas da DC, no intuito de atiçar os leitores. Neles, podemos antever algumas características desse novo mundo, como elementos de cronologias passadas voltando (como a Legião e a Sociedade da Justiça) e uma multiplicidade de versões de personagens coexistindo em um mesmo mundo (três coringas e uma porção de super-homens!). Os desenhistas Ivan Reis e Gary Frank são perfeitos para conferir o ar grandioso e icônico pretendido pelo Rebirth, enquanto os demais não chegam a prejudicar a edição.

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Pois é, Wally, como a DC foi te esquecer?

O melhor da edição está mesmo na saga de Wally West, em que Johns seus velhos truques: muitas referências à biografia do personagem e um clima épico e muito, MUITO açucarado (sério, Wally é salvo pelo amor). A escolha do Flash Pós-Crise como destaque já é um recado claro para os fãs mais antigos, uma vez que ele é praticamente um representante (e talvez o mais querido personagem) de toda uma geração de heróis que havia sido limada da cronologia dos “Novos 52”. A corrida de Wally parece ser mais para alcançar aqueles fãs que desistiram da editora, pega-los pelo braço e gritar: “lembrem-se de mim! Eu ainda importo!”. Ao final, o abraço entre Wally e seu mentor Barry Allen, que diz: “Como é que eu posso ter te esquecido?” parece mais um mea culpa envergonhado da DC por ter ignorado uma parte importante de sua mitologia.

Ok, até ai tudo bem, as coisas parecem fazer sentido com o plano da DC. Mas por que diabos mexer no vespeiro e inserir Watchmen nessa história?

LATE NIGHT WITH SETH MEYERS -- Episode 375 -- Pictured: (l-r) Chief Creative Officer at DC Comics, Geoff Johns, during an interview with host Seth Meyers on May 24, 2016 -- (Photo by: Lloyd Bishop/NBC/NBCU Photo Bank)
Johns, novo co-diretor da DC Films, no talk show de Seth Meyers.

O Funcionário do Mês

Volto à minha historinha do início do texto. Tenho a impressão que Johns é o que se costuma chamar nos EUA de “Company Man”, que arrisco traduzir como o “Funcionário do Mês”. Vocês sabem, aquele cara que não fica criticando o serviço, “dá o sangue” pela empresa e é bem-visto pela chefia. Apesar de seu carinho pelo universo dos super-heróis, Johns já demonstrou em mais de uma oportunidade que está disposto a fazer concessões criativas em favor da direção da editora. Suas sagas como “Blackest Night/Brightest Day” e “Sinestro Corps War” foram alongadas ao ponto de se tornarem chatas e perderem o sentido, para que a DC pudesse faturar mais. Johns manteve-se em silêncio durante os “Novos 52”, enquanto uma série de colegas deixava editora alegando diferenças criativas e tecendo duras críticas públicas à nova direção DC Comics. Sua paciência rendeu frutos: ele estava na posição certa para assumir as rédeas da nova proposta da DC/Warner.

Minha percepção é que Johns entende bem que os quadrinhos que ama são um produto comercial e que eles chegaram até os dias de hoje porque, no final das contas, o objetivo tem que ser um só: aumentar as vendas. E a DC parece desesperada para fazer isso em Rebirth, usando todos os truques manjados do mercado: renumeração de revistas (as #1 vendem bem entre colecionadores e novos leitores); capas variantes; aposta nos carros-chefe da editora (Superman e Batman);  propaganda em massa em mídia convencional; gibis abaixo do preço usual de mercado (como promoções relâmpago de distribuição gratuita do Rebirth #1); e edições quinzenais (incluindo Action Comics e Detective Comics, para acelerar a chegada à gorda edição #1000 de cada).

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“Não consigo mais sustentar a DC sozinho, é hora de chamar reforços!”

Passado o estranhamento inicial, fica fácil entender a escolha da DC. Inserir Watchmen na cronologia normal da editora é, para mim, apenas mais uma forma de alavancar as vendas. Prevejo que ao longo dos próximos anos, a DC irá lentamente jogar elementos do “Santo Grall” dos quadrinhos de super-heróis em suas revistas, tentando fisgar os leitores mais antigos. A aposta é que a curiosidade de ver os antológicos personagens de Alan Moore encontrar os heróis do universo normal será maior do que a fúria dos fãs mais fanáticos do “Escritor Original”, que consideram um sacrilégio tocar na minissérie (o que a DC já tentou, sem muito sucesso, com Before Watchmen).

A despeito da clara intenção  mercadológica, Johns até cria uma justificativa razoável para o acontecimento. Ele se aproveita de uma fase de efeito do Dr.Manhattan na série original (“talvez eucriarei alguma vida”) como aparente ponto de partida para a integração desses dois universos. Assim, ao manipular a linha temporal regular e roubar dela dez anos (por motivos desconhecidos), Dr.Manhattan teria deixado os heróis mais frágeis e inseguros e prejudicado toda uma geração de novos combatentes do crime, tornando o mundo mais sombrio e violento. Dessa forma, é como se a intervenção do careca azul “contaminasse” a realidade heróica da DC com o tom depressivo e fatalista do universo de Watchmen.

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Watchmen #12 (1987) e Rebirth #1 (2016)

O esforço de integração  em Rebirth #1 é ainda representado por algumas escolhas estéticas interessantes. Uma delas é o uso do tema do tempo durante toda a história, materializado na figura do relógio de ponteiro. Esse é um elemento recorrente na mitologia do Flash (o herói que corre contra o tempo) e é um dos símbolos mais marcantes de Watchmen, além de ser um aspecto importante da criação e desenvolvimento do Dr.Manhattan. Além disso, é bacana como a presença do deus azul nos quadrinhos é representada pela substituição do layout moderno das páginas para a tradicional divisão “6×6” de quadros, um dos símbolos gráficos da obra de Alan Moore.

A interpretação mais corrente (e maldosa) que tenho visto, é que a escolha do Dr.Manhattan como aparente antagonista do novo universo DC é uma forma da editora culpar Alan Moore por “corromper” os quadrinhos de super-heróis. De fato, Watchmen é uma obra inovadora e uma marco dos quadrinhos por ser a primeira grande desconstrução do gênero, mostrando como seriam de fato os heróis no mundo real e seu efeito na história. Watchmen é usado de forma recorrente para pontuar o início da “Era das Trevas” das HQs de heróis, com seu clima soturno e seus protagonistas violentos e de moral dúbia. Seria até mesmo uma forma de cutucar o “Escritor Original”, atualmente um crítico ferrenho da indústria de quadrinhos.

Embora Geoff Johns não costume ser muito sutil em suas metáforas (é só lembrar do Superboy-Prime como a representação dos fanboys raivosos), acho que ainda é cedo para dizer que essa é a intenção da DC Comics. Até porque isso seria bastante hipócrita da parte da editora, que está ao mesmo tempo lançando com grande estardalhaço a segunda continuação do Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, outro símbolo da era dos quadrinhos Grim n´ Gritty. Prefiro pensar que, no momento, Johns e cia. estão apenas tentando reforçar a escolha por uma linha editorial mais heróica e saudosista, assumindo discretamente o desvio de percurso dos “Novos 52”. Nesse sentido, é interessante contrapor o amoral Dr.Manhattan com a ética binária dos super-heróis da DC.

Não acho que seja uma “heresia” revisitar Watchmen, já que histórias posteriores escritas por outros autores não invalidam a minissérie. O problema é que a obra de Alan Moore é muito fechada, ela tem começo, meio e fim bastante amarrados tanto em roteiro quanto em elementos estéticos, sem a necessidade de outros adendos. Sua posição como um dos melhores gibis de super-heróis da história se deve ao seu caráter pioneiro para a época em que foi lançado.

Escrever algum tipo de continuação que tente chegar próximo do nível da obra original exigiria um roteirista extremamente habilidoso, transgressor e com bastante liberdade criativa, uma combinação inexistente na DC Comics hoje em dia. Receio que o experimento acabará por conformar os aspectos mais inovadores da minissérie às necessidades de mercado da editora, deixando apenas uma “casca vazia” e aquele gostinho de fan fic de má qualidade.

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Capitão Átomo da Terra-4 se preparando para ir para o Limbo das HQs: uma oportunidade perdida da DC.

Do ponto de vista de roteiro, talvez tivesse sido melhor que a DC usasse a Terra da Pax Americana, conforme estabelecido por Grant Morrison na recente Multiversity. Uma espécie de “cópia” do universo de Watchmen, a Terra-4 já está inserida na cronologia da editora e trabalha com alguns temas comuns à obra de Moore, incluindo o significado do heroísmo no mundo real. Até mesmo o seu Capitão Átomo (a contraparte do Dr.Manhattan) já apareceu em uma das histórias do Superman emCrise Final e coincidentemente desaparece no meio da edição, dando a deixa perfeita para sua presença em Rebirth #1. Seria uma ótima oportunidade para a DC contar nessa hercúlea empreitada com o apoio criativo de Morrison, um escritor famoso, talentoso e com uma boa relação com a editora.  Isso também reforçaria a proposta ostensiva da DC de valorizar sua própria história.

Mas aí ela deixaria de ganhar alguns trocados.

Em resumo, DC Universe: Rebirth #1 é uma boa história do Flash, com ótimos desenhos e recursos visuais interessantes, agradando os fãs de Geoff Johns. É uma boa pedida para os leitores mais saudosistas ou aqueles que tem uma curiosidade de conhecer a nova proposta da editora. Infelizmente, o que ela oferece é apenas um retorno emotivo ao passado, usando alguns truques manjados ao invés de apostar em alguma ideia mais inovadora.

Nota: 7 velocistas desesperados correndo contra o relógio.

Resenha Feita por HQCafé.

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