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Entenda o Coringa, Se Puder
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Entenda o Coringa, Se Puder

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Você pode nunca ter lido um quadrinho na vida. Pode jamais ter ido ao cinema ou assistido a uma série de TV. Mas se eu apresentar a foto abaixo e perguntar quem é esse cara, você vai me dar um tapa e dizer: É o Coringa, Pedro. Tá me tirando?!?

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Pois é. Poucos (pouquíssimos) personagens exercem tamanho fascínio nas pessoas como o Coringa. E não é só porque foi maravilhosamente bem escrito nos gibis ou interpretado por atores supergabaritados no cinema. Existe uma coisa nesse cara de sorriso largo e terno roxo que nos instiga, quer saibamos disso ou não. Mas que coisa é essa?

A primeira palavra que você deve conhecer é empolada e muita vezes mal usada. Arquétipo. No dicionário, arquétipo é um “modelo ou padrão passível de ser reproduzido em simulacros ou objetos semelhantes”

Hmn. Ok. Vamos simplificar.

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Um arquétipo é um modelo que pode ser representado por um objeto ou um personagem. Por exemplo, o Superman é o modelo do herói clássico. Tudo nele representa o ideal (ou a ideia) do heroísmo. Da pose aos conflitos morais, passando pelo corte de cabelo e os poderes. Se você pensa em um herói, pensa nele. Então, podemos dizer que o Professor Xavier é o arquétipo da figura paterna, porque esta é a relação que ele constrói com seus X-Men. Por sua vez, Magneto é o modelo da vingança, assim como o Justiceiro…

Nossa mente adora arquétipos e não para de construí-los. Temos milhares de figuras arquetípicas (palavra chique) na nossa cultura (e em nossas vidas) que representam o bem, o mal, a justiça, a dúvida, maternidade. E se tem uma arte que soube usar isso muito bem, foi a dos quadrinhos.

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O Coringa é o arquétipo da loucura. Não vemos lógica nem propósito em suas ações. Ele quer matar o Batman, mas se sente completo com ele vivo. Quer promover o caos, mas também passar uma mensagem de ordem. Os porquês não são claros e a absoluta ausência de lógica é o que o faz ser tão instigante.

A imagem do louco circula em quase todas as culturas há milênios. É um arquétipo que entendemos bem. Nos jogos de baralho, o coringa promove o desequilíbrio, desafia a ordem das cartas. Pode facilitar ou destruir uma jogada só por estar ali. E esse é o lance!

baralho

A loucura se opõe a tudo e a todos. E nos quadrinhos, como sempre, isso é potencializado ao extremo. Embora o Coringa seja qualificado como vilão, ele raramente se alia a outros de sua categoria. Isso porque a maioria dos caras maus segue um código, tem um propósito (por pior que seja) e se submetem às organizações e normas. E sua loucura anárquica (confusa e sem regras) não o torna um aliado confiável.

Oficialmente, pouco se sabe sobre o passado do Coringa, o que complica ainda mais a coisa toda. Como arqui-inimigo do Batman, Coringa se apresenta como “o outro lado” da loucura do herói mascarado. Uma resposta à ideia de se fantasiar e procurar encrenca nas ruas, o que, convenhamos, é loucura demais tanto para um quanto para outro.

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(Pessoalmente, acredito nessa ideia. Em algum momento, Coringa deve ter pensado: Se esse Batman pode se vestir de morcego e salvar inocentes, o que aconteceria se eu me vestisse de palhaço e matasse esses inocentes?)

Para concluir: A meu ver, a loucura do Coringa é a representação do instinto humano desgovernado, primitivo, livre, que não pensa no próximo passo, não planeja suas ações, ignora as consequências, gargalha na cara daquilo que é aceito e correto e satiriza nossas fraquezas. Todos nós temos esse instinto guardado (o que justifica essa vontade de ser o vilão), mas optamos por domina-lo para viver em sociedade.

Sabe aquelas muitas vezes em que você quer pendurar o seu chefe de cabeça para baixo e fazê-lo beber refrigerante de banana pelo nariz? É o seu lado Coringa querendo se divertir. E sabe por que você não faz isso? Porque o seu Batman não deixa.

Claro que este é um assunto que não se conclui em um post. Há muitas ramificações e perspectivas que precisariam ser melhor aprofundadas. Mas que tal considerar isso uma introdução?

Alguém aí arrisca entender esse cara? 

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Pedro Ivo "Uma vez eliminado o impossível, o que sobrar, por mais improvável que pareça, só pode ser a verdade."